quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

NUM RITUAL MÁGICO, CATÁRTICO, NECESSÁRIO

Por que assistir Tropa de Elite 2
O cinema brasileiro tem exercido um papel social e cultural na trajetória do país ora antevendo, ora refletindo o presente e o passado de acontecimentos determinantes na historiografia oficial e extra oficial. No seu Tropa de Elite 2, José Padilha Coloca uma série de razões para que o seu filme seja um marco não só do ponto de vista das questões que pontua, como  no que tange ao próprio evento cultural que o seu cinema anda promovendo.
Ao alcançar a marca de mais de 10 milhões de espectadores no cinema, o filme vem ratificar a ida às salas de projeção como ritual mágico, catártico, necessário - nada paga uma passagem pela caverna escura e onírica que nos desloca para outros mundos quando imersos nelas. A experiência coletiva de cumplicidade, parece resgatar a aura benjaminiana - não vale baixar na internet, se acomodar no sofá da casa para assistir a uma versão de uma cópia mal feita do Tropa de Elite 2 gravada num celular ou em câmera caseira: tem que ir À sala de cinema mais próxima e conferir tal sensação. Pela primeira vez na história, o cinema venceu a pirataria pela sua capacidade de fazer refletir e sonhar.
Mas para ser um bom filme é necessário que se tenham boas qualidades e isso Tropa de Elite 2 transpira de sobra. Com sua câmera vertiginosa e orgânica, muitas vezes como um olho observador, com a embriaguês das imagens, Padilha nos faz testemunha, junto com o Coronel Nascimento, de uma crônica de um Brasil invisível para a massa que ainda se molda numa leitura tele jornalística simplificada dos conflitos vividos hoje no Rio de Janeiro no tocante à violência nos morros.
Nada seria tão verossímil no filme sem a preparação do elenco feita por Fátima Toledo - se você assistiu a Tropa de Elite 2 e empatizou e se entregou à viagem que ele proporcionara é necessário destacar de forma específica o trabalho dessa profissional. No elenco, além de nomes já conhecidos, gostaria de pontuar o trabalho de Irandhir Santos (ator pernambucano que vem se destacando em seus trabalhos em televisão, cinema e teatro) que faz um ativista dos direitos humanos, que vê os métodos "não convencionais" dos Caveiras com um olhar crítico. Irandhir com seu personagem renova a sequência de Tropa.
Bráulio Mantovani, junto com o diretor, assina um roteiro seguro, com ritmo, progressivo, que consegue ao mesmo tempo ser denso e didático. E é assim que penso ser necessário falar de um filme cuja produção desafia a pirataria, a ilegalidade na circulação: dando destaque e nome àqueles que fazem parte de tal elite.
Com um filme mais ameno que o outro, o diretor estrutura um argumento crítico sobre as relações entre "mídia-política-segurança pública-favela" que são regidas por um poder maior, dissolvido, invisível, cujo o Coronel Nascimento (Wagner Moura) chama de "o sistema". Na verdade, durante todo o filme são apresentadas algumas funções sociais, alguns atores sociais que estão na estrutura do tal sistema pontuado durante toda a película.
Se em tropa de Elite o primeiro filme de Padilha fora acusado, equivocadamente, de incitar os jovens a favor da violência, e o público, respectivamente, também fora enquadrado como um espelho de conotações negativas; o sucesso da continuação do filme mostra que muito mais que sangue, palavrão e porrada, as discussões postas pelo diretor leva um Brasil às salas de cinema em busca de viver a grande catarse traduzida no filme: onde está o real, a parte crua e verdadeira da violência do Rio de Janeiro.
Tropa de Elite 2 vem bastante apropriado num momento em que as narrativas midiáticas insistem em por o problema da criminalidade no estado do Rio cheio de bandidos e mocinhos, uma novela com vários episódios e cheia de finais felizes e pontos de virada - como num roteiro clássico de Hollywood. Toda história de Padilha gira em torno de ações da polícia e dos poderes que a presidem, no bairro Tanque: alguma espécie de oráculo? Ocupação de favelas, prisão de traficantes, quase tudo seria muito parecido com a cobertura realizada pela imprensa no morro do Alemão se Padilha no seu filme não apontasse que essa história está longe de ter um fim, que não há heróis arquetípicos nesse filme que busca refletir a verdade, e que ninguém é tão bom assim. Aponta também a mídia como quarto poder que rege a relação entre bandidos e mocinhos (e bandidos, segundo filme), revelando o quanto ela é perigosa nesta cosmética da violência.
Se no primeiro filme, o diretor em alguns momentos teorizou sobre o terreno epistemológico que se dá as verdadeiras relações de opressão cujas favelas do Rio de Janeiro são o palco, em Tropa de Elite 2, através de um relato em primeira pessoa realizado pelo Coronel Nascimento (Wagner Moura), ele estrutura uma microfísica do poder, ficcionalizando o real para tocá-lo, pontuando que o problema da violência do Rio está para além do Rio, e muito longe de ser solucionado por estar preso a esferas muito mais complexas e poderosas.  E ainda ataca: a violência não é resolvida porque a política é um monstro que se nutre da existência dela. Tropa de Elite 2 afirma categoricamente que todo processo eleitoral se mantém, mantendo a miséria: eleitor sem instrução e com fome igual
a eleitor certo. E assim o filme de Padilha segue tecendo sobre a ínfima relação entre segurança pública-miséria-violência-política que permeia todo o filme.
Talvez Tropa de Elite 2 não seja nenhum marco estético na história do cinema brasileiro, porém abre mais uma vez nessa sequência o debate sobre a função social do cinema, o quão pode ser mobilizadora, reflexiva e crítica.  Ao sair da sala de projeção, o espectador que é atravessado pelo filme de Padilha sai um cidadão diferente, com um olhar mais denso voltado para a sociedade. Todas as questões postas pelo filme não são fechadas, talvez, novamente, pelo compromisso de Padilha com o real - que é a travessia.
Sobre as relações do homem com o poder, e de como pode ser atroz com o seu semelhante para tê-lo, Padilha não aponta soluções, mas através da ficção realiza uma crônica sobre uma experiência profunda e verdadeira na busca de uma verdade que nos escapa.
Eis algumas das razões para assistir ao Tropa de Elite 2.

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