quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

FUGA DA HISTÓRIA AO DEPARAR-SE COM ELA

O cinema Argentino e seus novos clássicos. Numa verdadeira polifonia de gêneros, em O Abraço Partido, Ariel, figura central da obra, ex-estudante de arquitetura desiludido, segue entre estas duas tensões, a procura delas e contra  elas. A busca da verdade sobre o pai, Elias, que nos anos setenta foi para a guerra

O Fabulário de Burman 
Uma estética que associa auto-relato a uma espécie de sede de ir embora.  Soma-se ainda uma miscelânea de referências ligadas ao mundo de aparências e ao culto ao transitório. Estes são aspectos presentes em O Abraço Partido (Argentina, 2004). Em meio às questões apontadas acima, as escolhas poéticas de Burman surgem de uma estranha contradição: de um lado, uma crise de pertencimento ligada a uma mitificação da Europa por parte da personagem protagonista, do outro, o movimento de busca e fuga do auto-reconhecimento.
Ariel, figura central do filme, ex-estudante de arquitetura desiludido com suas possibilidades na Argentina, segue veloz entre estas duas tensões, a procura delas e contra elas. Em meio à crise de seu país, o jovem, que mora com sua mãe, busca a verdade sobre seu pai, Elias, que nos anos setenta partiu para a guerra. Ariel busca freneticamente um passaporte para seguir para a Europa. Elias é um arquétipo enigmático que passa a maior parte do filme sendo reconstituído através das outras personagens.
O filme é dividido em partes (como capítulos) com títulos referentes aos assuntos desenvolvidos em cada fragmento. Quase toda a história se passa numa galeria. Um espaço de uma simplicidade ilusória. Vários personagens compartilham de uma realidade prosaica onde tradição e cosmopolitismo compõem as relações interculturais presentes (são coreanos, italianos, entre outros). Uma verdadeira elegia à pluralidade.
Ariel afirma no início do filme que a galeria é um mundo de aparências, mas que são narrativas que valem a pena contar. O espaço mencionado parece de fato, inicialmente, um mar de superficialidades: internet rápida, a loja de peças íntimas, salão de beleza, produtos de importação, entre outros. Burman, numa espécie de micro política do cotidiano, transcende este sentido utilitário e provisório das galerias, seu jogo de aparências, e apresenta uma preocupação social no seu filme através das crises individuais, focando a densidade de algumas personagens no mundo provisório dos shoppings centers e galerias.
Sua câmera ligeira e urgente traduz a impaciência de Ariel com as narrativas e sua incomunicabilidade com o mundo. Seus movimentos possuem um registro quase documental. A citação dos Girassóis da Rússia serve como ponto de esclarecimento do “mistério Elias”, levando sempre a mesma conclusão: só a fabulação o trará a verdade sobre seu pai.
 À moda de diretores como Scola (O jantar), Jeunet (o fabuloso destino de Amèlie Polain), Burton (Peixe Grande) e Eliane Caffé (Narradores de Javé), obviamente nas devidas proporções, seu fabulário latino é uma incessante busca pela auto-definição. A partir da jornada de Ariel, histórias são contadas e recontadas. As personagens têm uma inclinação para o auto-relato e pela divagação. Mas Ariel foge dela e do aprofundamento das histórias e busca a precisão dos fatos, sem ornato, sem registros emotivos. Dentre as histórias contadas pelos personagens da galeria, destaque para a história do casal coreano - de um lirismo tocante, a história dos Sagliani e os relatos sobre o bar – a certa altura o próprio Ariel sede e comenta: “para mim isto não é um bar e sim um livro de histórias”. O relato oral é o ponto em comum de todas as narrativas.
Qualquer sinal de aprofundamento ou conflito, Ariel ora busca Rita (mulher de quarenta anos que gerencia uma internet rápida) para sublimar suas ansiedades em encontros eróticos ora rabisca caricaturas.
A trilha sonora do filme são ressonâncias de todos os povos que habitam a galeria, verdadeira polifonia de gêneros. A discussão religiosa fica por conta da resistência do judaísmo frente às efemeridades do contemporâneo.
Em sua crise de pertencimento, Ariel transita por entre identidades diversas, próprias dos espaços urbanos que povoam o seu tempo. Tais identidades insistem em se revelar nas histórias de sua família e dos comerciantes da galeria. Mas o que fica é a sua impaciência e intolerância, fixando-se em sua obsessão em tornar-se polonês e entender os eventos que envolvem seu pai, Elias. O desconhecimento de sua própria história, escondida pela sua mãe, desorienta-o de tal maneira que o deixa cego diante das belas vidas que transitam ao seu redor. No clímax do conflito “Ariel e Elias”, ao som de um tango, Burman apresenta uma cena onde o filho foge incansavelmente pelas ruas enquanto seu pai busca alcançá-lo – Ariel foge do encontro com sua história ao deparar-se frente a frente com ela. Aos poucos sede a cada momento e a aceita.
Abraço Partido ecoa num jogo com o tempo e com a memória onde Burman desenvolve suas fabulações. Cada personagem à sua maneira, recua para o passado para se reconhecer. Ariel é mais um passante pela galeria, sua terra estrangeira, que busca saber-se no meio de tantos episódios.

Nenhum comentário:

Postar um comentário