A Imprensa e A Reinvenção do Real
Ivan Ferreira
“As formas de entretenimento permeiam notícias e dados, e uma cultura de infoentretenimento tabloidizada está cada vez mais popular”
Douglas Kelner
A unilateralidade atribuída aos medias ganhou dimensões maiores nos discursos referentes à comunicação no contemporâneo. O argumento freqüente de que a midiatização é um processo que isola e subjuga o sujeito o deixando na condição passiva em relação à informação se verticaliza ainda mais com o passar dos tempos. A presentificação e sacralização da TV e da imagem nos jornais impressos enfatizam o excesso de interlocução e sobreposição das narrativas sobre o real.
As tensões entre realidade e narrativa são mais anteriores do que qualquer tecnologia. Ela nasce com a própria linguagem. Contar alguma coisa sempre foi imbuído de uma dose de ficção, de releituras ou idiossincrasias. O narrador (ou mediador de informações) sempre terá este traço característico à sua função: a recriação. De fato, experiência e narração são dois fenômenos distintos, separados por um fosso profundo, um mistério chamado de "real". É claro que há níveis de distanciamento desta verdade e operação da retórica em função dos interesses de quem a gerencia.
Mas o que fazer quando o assunto se concentra nas grandes catástrofes que vem ocorrendo no Nordeste brasileiro? Cidades como Palmares e Barreiros foram destroçadas, praticamente apagadas do mapa: sua população, suas memórias, arquiteturas, e acessos. No Recife, o recrutamento de voluntários e doações não param de chegar no quartel do Derby. Há pessoas que não tomam banho desde a enchente. Água de beber tornou-se artigo de ouro e tudo fica mais difícil ainda quanto ao acesso a estas cidades.
A imprensa guarda maiores dramas em relação aos problemas concernentes ao processo de mediação. Nos gênero de entretenimento há uma adesão confessa à ficção. Apesar de alguns endossos de valores morais que por vezes rondam as edições e a direção de arte de mídias impressas e eletrônicas - há uma tendência ao afastamento do comprometimento com o real. A veiculação vai do dramático ao epifânico, prometeico, a grande revelação. a imprensa de massa se propõe ser o arauto que liga o mundo ao sujeito.
"Na poética da cheia" criada pela mídia muitas vezes falta objetividade e instrução para a população na hora de prestar um auxílio. Itens como água, alimento, higiene e limpeza são muitas vezes substituídos por roupas rasgadas, escova de dente usada, refil de estojo de barbear e até frascos de desodorante vazio.
A ignorância da população vem muito mais da desinformação, da ênfase na dramaticidade e plasticidade das catástrofes do que da falta de humanidade de quem quer ajudar. Não se tem boletins informativos que oriente corretamente como essas cidades irão sair de tal condição, se tem ensaios fotográficos e documentais estéticos, quando não piegas.
No surgimento da televisão ao vivo, da participação dos telespectadores, criou-se uma pseudo-passagem que apontava para um vínculo mais preciso com o mundo em tempo real e uma participação e co-autoria do espectador nos discursos promovidos pela TV. Mas as inserções da participação do público mascarou uma amenização do impacto do isolamento do sujeito no processo de construção discursiva promovido pela TV. Mas nunca, nem de longe, era resolvido o problema da representação do indivíduo e do grupo no espaço público. A televisão forjara um dialogismo que se esboçou e não se efetivou, ratificando ironicamente a distância de um poder de intervenção e participação da audiência. Tudo isso através de um roteiro bem definido e de um bom editor instruído para criar um folhetim ao selecionar imagens do suposto "real".
Com o jornalismo, as micronarrativas desenvolvidas fora da mídia (registros orais, e escritos dos atores sociais) perderam força e entram em crise. Os debates sobre os problemas relacionados à realidade só passam a ser ratificados através dos meios de comunicação, logo, os discursos que circulam por fora das grandes mídias se tornaram vozes silenciosas e sem poder de intervenção. Os relatos de quem vive uma catástrofe terminam metonimicamente recriados para comover o espectador e quem sai perdendo são as próprias vítimas.
A luta pela audiência encaminhou a notícia para um processo de ficcionalização do real cada vez mais acentuado, em que as retóricas persuasivas operam ainda mais e o processo de midiatização se torna ainda mais agressivo.
A audiência tem gerado uma espécie de “intergênero” no jornalismo em que a montagem serve como base para uma subjetivação da notícia com o propósito de desenvolver um apelo emotivo que conduza o espectador para o mundo dos simulacros. A notícia passa a ter trilha sonora, uma luz e um enquadramento especial, pode ser em slow motion, em preto e branco, um verdadeiro fabulário do real.
Outro movimento retórico interessante diz respeito à edição e a velocidade da notícia. Os discursos que estabelecem uma relação mais próxima do acontecimento são rápidos e sucedidos de evasões reflexivas. Os módulos - esportes, política, economia e programação cultural - se alternam não dando espaço para o espectador digerir as notícias.
O leitmotiv do momento deixa de protagonizar sozinho o foco do agendamento (a catástrofe). A temática da vez deixa de ser objeto de preocupação e se aglomera a módulos de temáticas extremamente distintas. A “montagem” da notícia e as ressonâncias inócuas no espectador devido ao tempo curto e a ordem confusa que gera a desconstrução dos fatos e o refluxo da informação, tira o efeito e a substância da notícia que deveria ser posta em evidência.
Enquanto isso, no "mundo real", Lula e os seus sobrevoam as cidades atingidas, e novamente, registram sua "dor" em primeiro plano. Restam chegar os recursos prometidos que chegam a 100 milhões tanto para os Estados de Pernambuco como Alagoas. Em cidades como Palmares, Barreiros, fica a esperança da população de que os Pernambucanos sejam melhor instruídos em suas ações filantrópicas para amenizar o impacto do desastre.
A montagem e o processo de ficcionalização geram um argumento forte na luta pela audiência e pela alienação da notícia. O processo de midiatização se torna muito mais feroz no contemporâneo pela guerra de mercado. Os pontos de convergências entre jornalismo e teledramaturgia tendem a aumentar enquanto aquele se configura numa órbita onde sua rede de informações é um conjunto de solilóquios cintilantes em que o espectador se relaciona cada vez mais de forma contemplativa e anestesiada.
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