Talvez a caixa mágica do cinema sejam espelhos superpostos que nos multiplicam, nos reinventam, nos mentem, nos narram. Houve um tempo em que se pensava que ele guardava uma sentido pronto para ser revelado (há ainda os que pensam assim). A verdade antes repousada na tela fora enterrada e sacramentada. Mas, mesmo sabendo que ela não guarda o azul fundamental, a pedra filosofal, ando buscando aturdido um céu qualquer para me iludir e me vejo perdido porque não anseio o céu de Fellini.
Lembro-me de Urano - (o deus do céu) lançando seus filhos sobre o tártaro. O céu não deve lá ser coisa revelada facilmente. Mistério (re) velado para quem insistem em buscá-lo.
Eu queria um céu desbotado, que o cinema me trouxesse dos trópicos, longe das esferas eurocêntricas e orientais. Mas por onde anda o céu nacional nessa paisagem cheia de opacidades chamada cinema brasileiro?
Um certo Satã (Lázaro Ramos) de Ainouz (personagem verídico) espalhando sobre a areia branca sua pele negra sob um céu azul mostra que até as madames mais incomuns a ele têm direito. Usurpa, de suas entranhas, luminosidades que lhe pertence: sinergia entre a negra luz e o azul que a penetra. E é daquele corpo negro e reluzente que o sol se alojou e fulgurou pelas ruas da Lapa em noites dionisíacas e torturantes pela saga de ser preto, homossexual, pobre e marginal. Como se o céu não pudesse em plena lua.
Em Madame Satã (2002) - do baiano Karin Ainouz, é-se céu apesar de. Nesse filme somos presenteados pela incandescência da fotografia de Walter Carvalho que como um Midas a tudo que toca faz fulgurar pelas ruas do Rio de Janeiro, luz. imprime um cromatismo orgástico - o filme é de uma plasticidade envolvente, vale a pena conferir.
Nos entreguemos sim a embriaguês de ser tomado pelo azul de Satã com suas fantasias e canções, com o seu corpo que dança para além das marcas que o reprimem. O filme vale por tanta coisa: uma Marcélia Cartaxo encarnando um estranho arquétipo que alquimiza a puta, a mãe, a donzela, a imperatriz. Ainouz e o microolhar sobre as minorias, sobre as figuras sociais solares, eclipsadas por historiografias oficiais que os ignora. Madame Satã é sol da meia noite.
Por outro lado, continuando a minha jornada, talvez o sol que nos espera não seja tão polarizado e cartesiano como assim o mostra "Nosso Lar" (2010) do diretor Wagner de Assis. Quase me deixo levar pela trilha de Glass, mas o azul era artificial demais para repousar em paz - talvez não coubesse Satã e isso me incomodou. No cinema quase fui tentado a mudar de canal - será novela das oito? Não. É apenas o céu hollywoodiano de Assis feito com um orçamento colossal e a base de Khroma Key. Não, aquele céu didático, block buster, quase infantil, não era o meu.
Talvez seus recordes de bilheteria só venha ratificar o que já dizia o mestre Nelson Rodrigues: "a unanimidade é burra". No meu céu tem mulata, tem roupa velha e macia de dormir, calçadas, casas simples, muro baixo, mãe correndo com o cipó para pegar o filho que há horas saiu para comprar o pão e não voltou perdido nas histórias que povoavam os bairros... Apesar de sentir que o mundo precise de mais sabedoria pra tocar em frente, acho que em sua maioria, nós, os brasileiros, somos "umbralísticos" demais, telúricos demais ainda para caber no céu americano de Assis (o Wagner).
Mas houve um céu. Difícil e doce. Com cheiro de cachaça e abandono. Com aridez e cumplicidade que me acolheu. Espelho espelho meu existe mundo mais atroz do que o meu? Céu ou inferno, soube naquele filme que gostaria de ser recepcionado com uma ou duas cervejas bem geladas para afogar no azul o apesar de na curva final. Ao som de Diana cantando "Tudo que eu Tenho" (aquela do Odair José) (música a fazer parte da trilha sonora do filme a ser comentado) - vendo suas imagens nas capas dos seus LP's percebi que ela era a nossa Deneuve e não sabíamos. E a queria no meu céu, se não fosse pedir muito junto com a outra: Suely.
O Céu de Suely (2006) de Karin Ainouz. Havia encontrado o meu céu? A saga de uma mulher que abre mão de seu próprio nome, Hermila (nome da mesma atriz que a fez), adotando o nome de Suely, voltando para o interior para esquecer o homem que a abandonou com um filho. Dançando brega no interior para esquecer a vida. Cheirando acetona com uma amiga-irmã para esquecer a dor. Nesse lugar, percebe que não pertence mais a cidade, faz uma rifa do seu próprio corpo para comprar uma passagem de volta para nenhum lugar. Mas tudo é poesia em Suely, dos gestos mais escusos aos mais largos.A paisagem quente e árida, o peso azul sobre o céu de Suely: é sim aquele sol que nos castiga e nos protege. A delicadeza da direção de Ainouz nos faz íntimos e cúmplices de sua história.
Hermila Guedes tem sido uma das grandes revelações da cena teatral e cinematográfica brasileira. Em Pernambuco, junto com a Cia. Angu de Teatro vem produzindo o que há de mais relevante na dramaturgia brasileira - sobretudo os textos de Marcelino Freire. O grupo tem feito uma crônica sobre personagens periféricos e sua alquimização com a mundialização da cultura.
Ainouz vai mais longe e busca uma microvisão desses atores sociais que transgridem e transcendem tempo e espaço (algo que já se esboçara em Madame Satã). Seu naturalismo foge da caricatura para traduzir o qual complexo é o processo de migração e pertencimento, assim como, algumas vivências e tabus culturais olhando-os bem de perto podem ser ressignificados. Acho que os filmes de Ainouz tentam nos dizer (além de outras coisas) que um homem é um homem em qualquer lugar do país.
Ainda ando procurando um céu, mas Ainouz com sua filmografia me trás um pouco de sombra no escuro do cinema enquanto ele não chega.

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