terça-feira, 29 de novembro de 2011

A Rede Social Alguém quer tc? Ou texto crítico-poético nada didático para ser lido ouvindo Creep interpretado por Vega Choir - Por Ivan Ferreira

Às vésperas da cerimônia do Oscar, A Rede Social (The Social Network, 2010) de David Fincher, o mesmo diretor de Seven - Os Sete Pecados Capitais (1995) e Clube da Luta (1999), se torna um dos favoritos à principal categoria de melhor filme ao lado de
O Discurso do Rei (The King's Speech, 2010), além de levar mais sete indicações (melhor edição de som, melhor trilha sonora, melhor montagem, melhor fotografia, melhor roteiro adaptado, melhor ator - Jesse Eisenberg) e melhor diretor. O filme ganhou no Globo de Ouro 2011 prêmios de melhor filme, diretor, roteiro e trilha sonora. Um drama que fala sobre a fundação do Facebook e que "narra", fabula a história do seu criador, Mark Zuckerberg em tal jornada.


Simulacro. Simular. Fabular. Na rede: um eu trocado, retalhos de imagens, palavras, iconografias, publicidade. Nos recônditos da solidão imersos na rede social, personagens se recriam em busca de aceitação, de serem incluídos através de suas invenções. Na rede somos imagens que dialogam, que se pulverizam, aparecem. Desaparecem. Zuckerberg, o da vida "real", fez história ao dar mais um ponto nesta costura que cada vez mais distancia o homem de si mesmo e de suas relações com o mundo.
Do que fala Rede Social?
Todo mundo quer estar junto, fazer parte de algo e na cultura do medo, andamos meio que enclausurados, enquadrados em nossas caixas, casas e apartamentos aguardando a qualquer momento alguma janela (digital) ser aberta.
"Em que janela deixei o último rastro de um personagem que crio e recrio todos os dias, maquiando a verdade? Mas o que é a verdade? Alguém aí pode me responder? Tem alguém aí?"

ou
O mundo digital é perfeito demais para simplesmente em plena luz do dia, aparecermos circulando pelas ruas. Na cosmética do belo, um rosto orgânico demais, gorduroso demais precisa do fotoshop perfeito, do ângulo perfeito para enfim ser aceito e receber, quem sabe, um comentário.

"É preciso encarar o lado obscuro de ser sempre outro além de si mesmo. Quer tc comigo ainda? Estou mais uma vez sozinha no escuro do quarto. A propósito, usar máscaras parece fazer parte de tudo isso aqui."

ou
A sociedade se tornou cada vez mais esquiza, esquizofrênica, esquiva, a imagem do outro é grande demais para que eu chegue tão perto dele...
ou
O desejo é um buraco sem fim. Eu e o outro: "Somos dois abismos: um poço fitando o céu" - Bernardo Soares  heterônimo de Fernando Pessoa.
"A cada janela um novo rosto se desenha numa nova caverna e quantos mega pixels são necessários para revelá-lo? Alguém aí pode me responder? "
Não, é apenas um filme. É apenas um filme? É apenas mais uma biografia ficcionalizada. Mas a história dos fundadores do Facebook guarda rastros, retratos de uma geração. O rosto pálido, esquálido, grave de Jesse Eisenberg no papel de Mark Zuckerberg (fundador oficial do site) esboça janelas de trincos e chaves para o real, ainda que aparecendo e desaparecendo para um bate-papo nas redes sociais.
O filme acontece enquanto o personagem principal responde a dois processos: um por roubo intelectual da ideia do site, outro por ter passado a perna no seu melhor amigo e co-fundador Eduardo Saverin. Com vários flashbacks costuramos pouco a pouco a história.

"Vários. Estou sozinho aqui também – pelo menos por enquanto. Devemos sim falar sobre isso e tal. Acho que somos reféns dessa caverna. Estamos presos à acidez de estar sempre à parte do mundo e das pessoas e isso pesa como chumbo sobre nossos dedos. Alguém parece vir! Pera! Pera!!"
Vejo inadequação ao real, confusões juvenis, sedução e poder: Solidão. Mas, calma, ainda se trata apenas de um filme.
Mark Zuckerberg na vida real é o mais jovem bilionário do mundo e está longe de ser a figura triste e solitária do filme que sofre retaliação por parte das mulheres de Harvard. Longe também de achar que não importa ter bilhões de dólares já que a namoradinha da faculdade o desprezou: "Olha, provavelmente você vai ser uma pessoa com muito sucesso com pcs, vai passar pela vida achando que as garotas não gostam de você, elas ñ vão gostar de você não porque é um nerd e sim porque é um idiota", detona a jovem Érica Albright ao acabar o namoro com o ainda estudante de Harvard que ambiciona ser aceito pelo Final Clubs - Um diálogo frenético que abre o filme e parece mais duas caixas de diálogos abertas metralhando uma verborragia sem fim, fluxo de consciência materializado. A interpretação de Eisenberg com sua expressão mecânica e fria, com sua fala ligeira como um teclado ágil, quase um rap ao som da excelente trilha sonora, arma pouco a pouco um quebra-cabeças cheio de intrigas.


 "Quer tc comigo? Já é tarde e estou na casa de um primo. Mas me sinto tão só... Estão todos reunidos lá fora. Em que reunião de família esqueci no canto da sala meu riso, meu rosto claro que se iluminava em plena luz do dia? Alguém quer tc comigo? Parece que sou estranha demais para estar com eles lá dentro. Alguém quer tc?"

 Timberlake encarna um arquétipo quase bíblico da sedução que escraviza e mantém vivendo Sean Parker - jovem empresário falido, viciado em drogas que se aproxima de Mark para tirar proveito de suas descobertas se tornando um verdadeiro ego auxiliar do jovem bilionário.
"Sou nova, e meus dedos estão calejados por buscar apenas ilusões na luz azul que brilha no centro da minha caverna. Onde estará por esta cidade estranha, por esta multidão solitária, o outro, o espelho que irá me refletir e eu a ele?"
Por outro lado, David Ficher põe em crise as relações virtuais, apontando no seu fabulário cinematográfico que nada substitui viver o mistério com o outro em plena luz do dia (ou da noite).
Tive uma estranha sensação ao ver esse filme duas vezes e não sentir vontade de escrever uma crítica sobre ele. Sob o impacto da música Creep belamente interpretada pelo Vega Choir no trailler de Rede Social escrevi-a. Ao terminar esse texto, nasce a vontade de rever o mesmo filme que me inquietou sem saber porque. Talvez porque ele tenha mais a ver com a nossa geração do que eu supunha.

* Os trechos em destaque são do texto teatral "Por onde andas longe de Mim ou a caverna é escura demais" de autoria de Ivan Ferreira. O espetáculo ficou em cartaz no Recife no ano passado, fala de cinco jovens enclausurados em seus quartos teclando uns com os outros buscando uma sensação de pertencimento, vivendo num hiato entre o mundo real e o virtual.

  

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